Jornalista e professor universitário, mantenho neste blog alguns fragmentos do meu pensamento.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Música do início ao fim

Eu gostava de música. Quando nasci, já era músico, sem ter a menor consciência disso. O meu choro era o único que apresentava harmonia e técnica musical. No berçário, os outros bebês morriam de inveja e gritavam cada vez mais alto para me desafiar e abafar o som melodioso que eu reproduzia. Em vão. O meu canto sobressaía.

À medida que crescia, minha vida ficava mais impregnada de música, mas por diferentes razões. Primeiro, mamãe insistia em tocar flauta doce, piano, violão, violino e sussurrar canções ao meu ouvido para que eu me seduzisse pela música. Mas ela tinha um problema com a afinação que causou um efeito contrário, pois a música se tornou um sacrilégio para mim.

Mamãe me matriculou em um curso de Musicalização Infantil e foi lá que eu descobri que havia música diferente daquela que mamãe ensinava. Eram três horas semanais que eu adorava, pois ficava sem escutar a música dela. Três horas que eram esquecidas assim que mamãe me buscava de carro e, ao invés de ligar o rádio, começava a cantar. Aquilo causava uma dor intensa nos meus ouvidos e eu, criança, não conseguia entender o porquê.

Os anos se passaram. Eu já era um adolescente e compreendia porque a música causava em mim sentimentos tão antagônicos. Quando não estava perto de mamãe, a música era maravilhosa. Quando estava com mamãe, a música era terrível. Foi então que começou a minha busca pela independência, pela libertação da música de mamãe. Mas eu tinha apenas 15 anos e não tinha como sair de casa e me sustentar. Na escola, até fiquei conhecido como o "empresário" da classe, por causa das minhas seguidas tentativas de firmar um negócio, ganhar dinheiro e sair de casa. Contudo, nada dava certo.

Aí mergulhei nas drogas. Comecei na maconha e logo parti para a cocaína. Eu sabia que estava no caminho errado, que aquilo era apenas uma fuga. Mamãe, desesperada, não sabia o que fazer e alguém disse que ela devia passar o máximo de tempo comigo, mostrando todo o seu apreço e dedicação por mim. Então diariamente ela se trancava comigo no quarto e cantava.

A minha história acabou quando mamãe começou a estudar música durante o dia – para cantar à noite. Eu já não podia suportar mais. Queria viver, mas a vida não fazia mais sentido. Um dia, mamãe voltou da aula e me disse que agora cantaria bem, porque aprendera arpejos. Aqueles segundos foram uma eternidade para mim. Eu queria gritar e dizer "não cante!", mas não deu tempo. Ela cantou. E os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio.

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Texto escrito para um concurso da revista Piauí. O objetivo era escrever uma crônica que contivesse a expressão "e os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio".

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Morre joão

Morreu hoje aos 61 anos joão. O sobrenome dele não será divulgado porque não importa, não vai diferenciá-lo da multidão de joões que existem por aí. Ele é só mais um brasileiro comum. Não era nenhuma estrela pop que só tem qualidades, nem um político corrupto que só tem defeitos. Era um homem contraditório, que tinha o bom e o mau ao mesmo tempo. Era o bom pai e o mau funcionário. O bom pagador e o mau marido. Sim, joão era o bom pai e o mau marido ao mesmo tempo, algo que parece inconcebível nos noticiários de estereótipos que assistimos.

joão morreu em paz, dormindo. Não levou uma porção de tiros enquanto se escondia da polícia. joão não era um grande astro da guitarra que morreu por estupidez, ou melhor, por overdose. joão não era casado com uma princesa e herdeiro do trono real. Nem foi um grande presidente que tomou medidas importantes para acabar com a opressão do seu país. Mas também não foi um dos oprimidos, em situação deplorável, cujas fotos rendem royalties até hoje a seus autores.

joão morreu normal e anônimo, como morrem 99,9% das pessoas, as que não ocupam as páginas, telas e ondas dos noticiários, mas que compõem a massa de seres humanos que povoa o mundo, cada um com sua história pessoal, individual e única.

Quem sabe virasse um case de matéria, como Paulo Almeida virou. Mas joão não tinha nenhum sobrinho cujo amigo era jornalista, como Paulo Almeida tinha e por isso virou case, ganhou até sobrenome e direito a letra inicial maiúscula. joão era apenas o vizinho de Almeida. Mas joão já esteve nos jornais. Ele estava lá na tela quando o apresentador anunciou a redução no número de desempregados. joão estava num daqueles números.

joão era normal, sem graça e sem sal, herói do neto a quem dava um bombom Sonho de Valsa (não era Kopenhagen, mas pelo menos não era um simples Babaloo) em todas as visitas. Ah, joão, se fosse relatado tudo o que você viveu! Cada alegria, cada tristeza, o medo do desemprego, a violência com que tratou a mulher na juventude, o remorso rondando a mente na hora de dormir, as vezes em que prometeu a si mesmo que não beberia mais, os convites dos amigos para ir ao bar, os negócios que você fez, os ônibus que você tomou, o trânsito que enfrentou, a comida que você preparou quando ela estava doente. Ah, joão, tanta coisa comum. Nada disso ia entrar nos jornais. Nada disso dá notícia.

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Dor

Sorriso

O sorriso economizado à minha presença
é investido em olhares alheios
Alheios a todo amor,
toda dor que existe
Alheios ao torpor com que observo a cena
Obscena, violenta, pulsão de morte

Coração

Derrete-se minha face frente ao calor,
às chamas que dançam e corroem
o abrasado carvão enegrecido
Não pelas sombras efêmeras
Mas pelo tempo que sepulta toda morte
Invariável, implacável

Carvão coração, quem te dá vida?
Ainda há que se descobrir
como fazer a chama queimar sem matar
o tempo passar sem sepultar

A dor que aperta o peito
e só faz aumentar
é produto do amor multiplicado em todo cuidado,
Todo carinho, de quem sofre calado,
de quem sofre sozinho
por sentir o vazio que preenche o peito
como bala que rasga
como única resposta à pergunta fatal
Quando vais me amar?

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Amigos à parte

Amigos, amigos, negócios à parte
Negócios, negócios, amigos à parte
Amigos podem partir negócios
Negócios podem partir amigos
Amigos partem
Eu parto, tu partes, eles partem

À parte de tudo isso,
continuam sendo amigos
e parte da distância
é em última instância
o que nos faz ter saudades,
e partir de onde quer for
para encontrar amigos à parte

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Riqueza infinita

Enquanto eu puder vou explorar princípios interessantes do livro Criatividade e Grupos Criativos, do Domenico de Masi, como eu venho fazendo nos dois post anteriores. Desta vez, relendo as marcações que fiz no livro, achei outra citação interessante e gostaria de refletir nela. Ela está em uma subseção do livro que se chama "O enriquecimento insensato". Ali o autor descreve a análise que Aristóteles faz das formas para se adquirir riqueza.

Primeiro ele aborda a "riqueza não-suscetível de crescimento, cujo objetivo é o simples consumo dos bens obtidos". Um exemplo prático é o dos nômades, que se aproveitam da riqueza dos locais onde estão somente para consumo. No enanto, há tipos de crescimento ilimitado de riqueza, especialmente através do intercâmbio de mercadorias e do uso do dinheiro.

Diferentemente do enriquecimento obtido com a pesca, a caça e o pastoreio e a agricultura, aquele obtido graças ao intercâmbio não tem limites, podendo crescer ad infinitum. Por isso aqueles que cultivam esse gênero de vida acabam se alienando, por tomar o meio como fim, preferindo trocar as coisas, em vez de usá-las, de modo que "toda a energia deles gasta-se na busca de riquezas". (itálicos e aspas do autor – as aspas se referem a expressão de Aristóteles)


Em outras palavras, com a possibilidade de enriquecimento infinito, o trabalho – a troca de mercadorias – torna-se central na vida da pessoa (ou da sociedade) Para Aristóteles, o trabalho deveria visar apenas à provisão de sustento das pessoas. O centro da vida era o lazer, o convívio com os familiares, o jogo e o estudo.

Talvez a idéia de Aristóteles seja idealista demais, mas, mais uma vez, nada nos impede de refletir em alguns princípios. Nos posts anteriores, eu falei a respeito do trabalho industrial (operário), repetitivo, automático e geralmente irrefletido. Esse trabalho acabava com a capacidade de pensar e criar do ser humano. E o objetivo dele era tão somente colaborar para a organização industrial, que de fato permitia lucros cada vez maiores. É o mesmo que priorizar o lucro e o "crescimento" em lugar do desenvolvimento pessoal; é "o meio como fim". O ser humano precisa de tanto trabalho assim? Precisa realmente gerar tanta riqueza? Muitas pessoas não levam em conta isso, mas o enriquecimento é o centro da vida delas e para isso trabalham sem parar. E ficam mais eficientes em suas empresas e menos seres humanos. Tocqueville disse em A Democracia na América:

Quando um operário se dedica contínua e unicamente à fabricação de um só objeto, acaba por realizar este trabalho com uma singular habilidade; mas ao mesmo tempo perde a faculdade geral de aplicar o seu espírito na direção do trabalho. Ele torna-se cada dia mais hábil e menos industrioso, e pode-se dizer que nele o homem se degrada à medida que o operário se aperfeiçoa.

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A ponte para a realidade

Quero discorrer um pouco mais sobre o que li no livro Criatividade e Grupos Criativos – Volume I (Descoberta e Invenção), do sociológo italiano Domenico de Masi.

Em seu livro, o autor acredita que podem haver algumas objeções às suas previsões. Ele prevê que a sociedade pós-industrial, que é esta em que estamos vivendo e está se firmando, será uma sociedade de muita criatividade e intensa atividade intelectual para a humanidade, como um todo. No entanto, o ser humano pode ter se acostumado tanto com o trabalho operário da sociedade industrial (fundada pela Revolução Industrial) que pode não topar o desafio de pensar. Isso fica mais claro nesta citação:

A seleção, o adestramento, a formação, a divisão das tarefas, estrutura hierárquica, os lugares físicos, os objetos, assim como as gratificações, tudo isso concorre para fazer com que as tarefas executivas nos pareçam naturais e confortantes, enquanto a atividade criativa pareça excêntrica, arriscada e psicologicamente muito onerosa.


A única solução para a sociedade criativa que podemos ser é oferecer uma educação de verdade para todos. Como educação, deve-se entender um ensino que dê autonomia de pensamento para o indivíduo, ou seja, que o liberte da necessidade de seguir a "corrente". Para isso, não basta a educação técnica (ou tecnicista) que está prevalecendo na sociedade ("Preparamos você para o mercado de trabalho!"). Domenico quer "mobilizar" a massa para pensar, como pode-se perceber melhor nesta outra citação:

Para administrar todos esses fenômenos, para extrair deles todas as vantagens possíveis, em termos de qualidade de vida e qualidade do trabalho, a fim de evitar os perigos em termos de alienação intelectual e de exploração material, é necessário mobilizar uma massa de criatividade bem maior do que a que era requerida pela sociedade industrial, a qual delegava a elites restritas a produção dos problemas e das soluções.

Agora eu quero lançar duas questões sobre as quais tenho pensado, mas ainda não cheguei a uma conclusão.

1) Isso é possível? Quero dizer, com toda a força da New Economy, desta sociedade que diz "trabalhe, trabalhe, trabalhe!", seria realmente possível vencer o mercado usando apenas a criatividade? É possível recriar a sociedade sobre o humanismo, desenvolvendo-a a ponto de que a maioria das pessoas abram mão de ganhar dinheiro por mais conhecimento e intelectualidade?

2) Isso vale a pena? Se é possível recriar de forma tão dramática a sociedade, a conseqüente pergunta é se isso vale a pena. Qual seria o objetivo de mudar dessa forma a sociedade? Domenico diz que isso tornaria as pessoas mais felizes, mas eu não estou completamente convencido disso.

De qualquer forma, a sociedade atingindo o estágio criativo ou não, nada impede de fazer do seu trabalho (local, equipe, atividade) algo mais criativo, colaborativo e prazeroso.

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Criatividade, coletividade e cooperação

Meu blog continua, aos trancos e barrancos, é verdade, mas continua aqui. Vou dar uma pincelada agora sobre um livro que eu li nestas férias, Criatividade e Grupos Critativos – Volume I (Descoberta e Invenção), do sociólogo italiano Domenico de Masi. Embora discorde de vários pontos da abordagem dele, há alguns conceitos a respeito de criatividade que vale a pena assimilar.

O que mais me chamou a atenção nesse livro é o foco que o sociólogo dá na colaboração como forma de potencializar a criatividade. Na sociedade que prevaleceu após a Revolução Industrial, a criatividade foi tolhida porque o trabalho ficou mecanizado. A produção em série e a rígida organização do trabalho no início do século 20 (como pode-se ver na fábrica de Ford), tinham milhares de operários que executavam, cada um, seu pequeno papel. Repetiam aquele pequeno papel centenas de vezes ao dia. Milhares de vezes ao mês. Milhões de vezes ao ano.

Mas Domenico indica que esta não será a realidade do século 21. Primeiro, porque as máquinas estão evoluindo de uma forma tão grande, que logo serão capazes de executar qualquer tarefa manual. Mas elas nunca serão capazes de executar uma tarefa intelectual. Para isso, é preciso ter inteligência. Ou seja, somente seres humanos podem trabalhar dessa forma. E é desta forma que, segundo ele, trabalharão no século 21: pensando. E como o trabalho será pensado, intelectual, aí entra o papel colaborativo. Domenico defende a tese de que os verdadeiros avanços criativos não acontecem por causa de uma idéia genial (de um gênio). A idéia pode ser de um indíviduo, mas é construída, incrementada, manipulada, enfim, “esculpida” por todos que estão à sua volta, com quem o indivíduo compartilhar. É aí que estaria a chave do sucesso para o trabalho no século 21. Trabalhar coletivamente e criativamente.

Se ele está certo ou não, só o tempo dirá. Mas que é uma idéia que vale a pena ser testada, não me resta dúvidas. Pessoalmente, estou tendo a oportunidade de participar de um grupo criativo formado em dezembro, os “rumeiros”. Vou deixar para explicar o grupo depois, mas exijo que você visite o nosso blog: www.ruminandocultura.blogspot.com. É um exemplo de grupo criativo trabalhando em conjunto para ampliar a discussão sobre cultura. Será que vai dar certo? De acordo com o sociólogo Domenico de Masi, esse é o caminho!

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